Close

Ensino e Aprendizagem da Leitura e da Escrita nos Primeiros Anos em Escolas Montessori: um diálogo entre Maria Montessori e a Neurociência Cognitiva

Por Carolina Pelegrini,Priscilla Noce e Marina Azevedo

Nos primeiros anos escolares, aprender a ler e escrever vai muito além da aquisição de habilidades técnicas: esse processo reorganiza circuitos cerebrais inteiros, modificando a forma como a criança percebe, interpreta e compreende o mundo. Em salas de aula montessorianas, essa construção acontece em um ambiente que valoriza a exploração ativa, o desenvolvimento da autonomia e o respeito ao ritmo individual de cada criança. Hoje, pesquisas da neurociência cognitiva demonstram que muitas dessas práticas, observadas por Maria Montessori no início do século XX, encontram sólido respaldo científico.

Este artigo discute o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita a partir das contribuições de Stanislas Dehaene, Maryanne Wolf, Usha Goswami e Angeline Lillard, buscando compreender como os princípios montessorianos dialogam com as evidências atuais sobre o funcionamento do cérebro leitor.

Historicamente, o método Montessori propõe uma educação baseada em um ambiente cuidadosamente preparado, no uso de materiais concretos e manipulativos e na aprendizagem ativa, em que a criança assume o papel de protagonista da construção do conhecimento. Muito antes de a neurociência explicar como o cérebro aprende, Maria Montessori já defendia que o desenvolvimento intelectual ocorre por meio da interação entre movimento, experiências sensoriais, linguagem e autonomia.

A alfabetização é um marco fundamental do desenvolvimento infantil e da inserção social e cultural da criança. Integrar práticas de ensino com metodologias ativas, como a abordagem Montessori, e compreender como o cérebro aprende reforça a importância de uma educação alinhada às evidências científicas, com maior intencionalidade, eficiência e eficácia. Investigar essa relação contribui para esclarecer os processos de aprendizagem e para aprimorar as práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento integral da criança.

 

Desenvolvimento da   linguagem escrita   na perspectiva montessoriana

Na abordagem Montessori, a aprendizagem da leitura e da escrita não acontece de maneira repentina. Trata-se de um processo cuidadosamente preparado desde os primeiros anos de vida, respeitando a chamada Mente Absorvente da criança e os períodos sensíveis do desenvolvimento.

Desde cedo, a criança é inserida em um ambiente rico em linguagem oral, vocabulário preciso, experiências sociais e materiais rigorosamente organizados. Antes mesmo do contato formal com a escrita, desenvolve habilidades motoras, coordenação, concentração, percepção sensorial e organização do pensamento.

Segundo Angeline Lillard (2017), uma das principais pesquisadoras contemporâneas da educação Montessori, a preparação para a alfabetização acontece em quatro pilares fundamentais:

  • desenvolvimento da linguagem oral;
  • atividades de vida prática;
  • materiais sensoriais;
  • desenvolvimento motor.

Somente após essa preparação inicia-se o trabalho sistemático com a consciência fonológica.

As Letras de Lixa (Sandpaper Letters) representam um dos materiais mais conhecidos do método Montessori. Ao tocar a letra enquanto pronuncia seu som, a criança integra simultaneamente estímulos táteis, visuais e auditivos, fortalecendo as conexões neurais responsáveis pela aprendizagem da linguagem escrita.

Outro recurso essencial é o Alfabeto Móvel, que permite à criança escrever antes mesmo de dominar completamente os movimentos necessários para utilizar o lápis. Dessa forma, a dificuldade motora não limita sua capacidade de organizar pensamentos, construir palavras e compreender a relação entre fonemas e grafemas.

Nesse contexto, a escrita frequentemente antecede a leitura. A leitura surge naturalmente, quando o cérebro já consolidou as relações entre sons, símbolos e significado, tornando o processo prazeroso, significativo e profundamente motivador.

 

Um diálogo com Stanislas Dehaene

Os estudos do neurocientista francês Stanislas Dehaene mostram que a leitura não é uma habilidade biologicamente programada, mas uma invenção cultural que exige a reorganização de diferentes regiões cerebrais responsáveis pela percepção visual, linguagem oral, atenção, memória e coordenação motora.

Segundo Dehaene, aprender a ler significa construir conexões entre grafemas e fonemas por meio da consciência fonológica e da prática sistemática.

Essa perspectiva aproxima-se diretamente da proposta montessoriana.

As atividades de vida prática, os materiais sensoriais e o desenvolvimento motor fortalecem funções executivas, atenção, controle inibitório, coordenação motora fina e percepção espacial — capacidades reconhecidas atualmente pela neurociência como fundamentais para a alfabetização.

A importância atribuída por Montessori à consciência fonológica também encontra forte respaldo nas pesquisas de Dehaene. Quando a criança identifica sons antes de conhecer as letras e manipula esses sons utilizando materiais concretos, seu cérebro estabelece conexões mais eficientes entre linguagem oral e linguagem escrita.

O uso do Alfabeto Móvel representa outro importante ponto de convergência. Dehaene demonstra que a aprendizagem torna-se mais sólida quando a criança participa ativamente da construção das palavras, manipulando letras, testando hipóteses e produzindo significado. É exatamente isso que acontece nas salas Montessori.

 

Ampliando o diálogo: Maryanne Wolf e Usha Goswami

As descobertas mais recentes da neurociência reforçam ainda mais a atualidade da proposta montessoriana.

Maryanne Wolf, uma das maiores especialistas mundiais no desenvolvimento do cérebro leitor, demonstra que aprender a ler significa construir um circuito cerebral completamente novo. Em Proust and the Squid (2007) e Reader, Come Home (2018), explica que a leitura proficiente depende não apenas da decodificação das palavras, mas também do desenvolvimento da atenção, da memória, da linguagem oral, da curiosidade, da reflexão profunda e da compreensão.

Esses princípios dialogam diretamente com Montessori. Em vez de priorizar velocidade ou repetição mecânica, a abordagem oferece um ambiente preparado, materiais concretos, liberdade responsável e tempo suficiente para que cada criança desenvolva uma relação significativa com a linguagem escrita. Assim, o prazer pela leitura nasce da descoberta e da autonomia, fortalecendo a motivação intrínseca para aprender.

Da mesma forma, os estudos da neurocientista Usha Goswami demonstram que a alfabetização começa muito antes da apresentação formal das letras. Segundo suas pesquisas, experiências ricas com linguagem oral, rimas, ritmo, vocabulário, jogos fonológicos e conversas ampliam significativamente o desenvolvimento das redes neurais responsáveis pela leitura.

Essa perspectiva aproxima-se de forma notável da proposta montessoriana. Antes de apresentar o código escrito, Montessori investe intensamente na preparação indireta da leitura por meio do enriquecimento da linguagem oral, das experiências sensoriais e do desenvolvimento da consciência fonológica. Materiais como as Letras de Lixa e o Alfabeto Móvel deixam de ser apenas recursos didáticos e passam a representar estratégias alinhadas às evidências científicas sobre como o cérebro constrói a leitura.

 

 

A relação com Maria Montessori

O aspecto mais interessante é que Maria Montessori chegou a essas conclusões por meio da observação científica das crianças, décadas antes da existência das técnicas modernas de neuroimagem.

 

Conclusão

Ao observar cuidadosamente as crianças há mais de cem anos, Maria Montessori desenvolveu uma proposta pedagógica baseada no respeito ao desenvolvimento humano, na autonomia e na aprendizagem ativa.

Hoje, pesquisas conduzidas por Stanislas Dehaene, Maryanne Wolf, Usha Goswami e Angeline Lillard demonstram que muitos desses princípios encontram respaldo nas evidências produzidas pela neurociência cognitiva.

Embora pertençam a épocas e áreas distintas do conhecimento, todos convergem para uma mesma compreensão: a alfabetização é um processo ativo, gradual e

profundamente humano. Ela depende da integração entre linguagem oral, consciência fonológica, experiências multissensoriais, desenvolvimento motor, atenção, motivação e interação com um ambiente rico em oportunidades de aprendizagem.

Essa convergência fortalece a ideia de que a educação baseada em evidências não representa uma ruptura com a filosofia Montessori, mas uma confirmação científica de muitas das observações realizadas por Maria Montessori muito antes da existência das modernas tecnologias de investigação do cérebro.

Ao integrar uma metodologia pedagógica fundamentada em pesquisas e evidências científicas às descobertas da neurociência contemporânea, reafirmamos nosso compromisso com uma educação que reconhece a criança em sua integralidade e promove uma aprendizagem significativa, duradoura e coerente com os conhecimentos atuais sobre o desenvolvimento do cérebro humano. Esse compromisso torna-se ainda mais relevante durante o período da Mente Absorvente, descrito por Maria Montessori, que compreende aproximadamente os seis primeiros anos de vida. Atualmente, a neurociência reconhece essa fase como um período de extraordinária plasticidade cerebral, no qual o cérebro estabelece bilhões de conexões neurais e apresenta máxima capacidade para a aquisição da linguagem, do movimento, das funções executivas e das habilidades socioemocionais. Ao oferecer um ambiente preparado, rico em experiências sensoriais, linguagem, movimento e autonomia justamente nesse período, a abordagem Montessori potencializa esse momento único do desenvolvimento humano, demonstrando que muitos dos princípios observados por Maria Montessori há mais de um século são hoje amplamente corroborados pelas pesquisas em neurociência cognitiva.

Tema Maria Montessori Stanislas

Dehaene

Maryanne Wolf Angeline Lillard
  Visão             da

aprendizagem

A        criança constrói          seu próprio conhecimento por     meio    da interação com o ambiente preparado. A aprendizagem modifica o cérebro por meio da plasticidade

neural e da reorganização de circuitos cerebrais.

A aprendizagem da leitura transforma cérebro depende

experiências linguísticas significativas.

 

o

e de

Evidências científicas

mostram que a pedagogia Montessori

favorece o desenvolvimento cognitivo e socioemocional.

Primeira infância            (0–6 anos)   Período            da

Mente

Absorvente, fase de maior potencial para o desenvolviment

o.

  Período        de

intensa plasticidade cerebral, fundamental

para               a

organização

das     redes neurais.

ebro leitor. Estudos mostram melhores resultados quando criança participa ambientes Montessori desde Educação

Infantil.

 

a

de

a

Alfabetização Processo preparado gradualmente, iniciando            com experiências sensoriais,

motoras e linguagem oral.

A leitura depende da

integração entre visão, linguagem,

memória        e

consciência fonológica.

  A       leitura       é

construída progressivament e a partir da linguagem oral e         da compreensão.

Crianças

Montessori apresentam bom desempenho em leitura             e

linguagem quando comparadas            a

métodos tradicionais.
Linguagem

Oral

Base     para     o

desenvolviment o da escrita e da leitura.

Essencial para formar as conexões neurais que sustentam a alfabetização. É           o              principal alicerce           do cérebro leitor e da compreensão leitora. Os       ambientes

Montessori favorecem maior desenvolvimento linguístico              por meio              das interações e da autonomia.

Materiais multissensoriais Letras de Lixa, Alfabeto Móvel e materiais

concretos integram movimento, tato,     visão    e audição.

A

aprendizagem multissensorial

fortalece              a consolidação

das redes neurais da leitura.

Diferentes estímulos sensoriais

favorecem      a construção      do cérebro leitor.

Pesquisas demonstram que os materiais Montessori

promovem aprendizagem

ativa    e significativa.

Autonomia A              criança

aprende

fazendo           e escolhendo suas atividades.

A motivação aumenta              a aprendizagem e fortalece as conexões cerebrais. O            interesse

genuíno favorece              uma leitura profunda e significativa.

A autonomia é um       dos resultados mais consistentes encontrados em pesquisas sobre Montessori.
Papel             do

professor

Observador,

guia     e organizador do ambiente.

Organiza experiências que favorecem a aprendizagem baseada no Mediador              que promove linguagem,

diálogo              e

experiências ricas de leitura.

O           professor

Montessori atua como facilitador do desenvolvimento , favorecendo independência

funcionament o cerebral. e autorregulação.
Contribuição científica Desenvolveu uma metodologia

baseada          na

observação científica         da criança.

Explicou como o cérebro aprende a ler e como ocorre a

plasticidade cerebral.

Demonstrou como se forma o cérebro leitor e a importância da              leitura significativa. Validou cientificamente,

por       meio    de pesquisas experimentais, a eficácia           da educação

Montessori.

Referências Bibliográficas

  • DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.
  • GOSWAMI, Usha. Children’s Cognitive Development and Learning.

Cambridge Primary Review Trust, 2015.

  • LILLARD, Angeline Stoll. Montessori: The Science Behind the Genius. 3. ed. New York: Oxford University Press, 2017.
  • LILLARD, Paula Polk. Método Montessori: uma introdução para pais e professores. São Paulo: Editora Manole, 2017.
  • MONTESSORI, Maria. A Mente Absorvente. Campinas: Verus Editora, diversas edições.
  • MONTESSORI, Maria. A Descoberta da Criança. Campinas: Verus Editora, diversas edições.
  • WOLF, Maryanne. Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain. New York: HarperCollins, 2007.
  • WOLF, Maryanne. Reader, Come Home: The Reading Brain in a Digital World.
    New York: HarperCollins, 2018.
× Agende sua visita!